Esse
texto tem como objetivo diferenciar a surdocegueira da Deficiência Múltipla, apontar
as necessidades básicas desses alunos e estabelecer as estratégias que são
utilizadas para a aquisição da comunicação.
Denomina-se surdocego àquele que
possui dificuldades visuais e auditivas, independentemente da sua quantidade. “Uma
pessoa que tenha deficiências visuais e auditivas de um grau de tal
importância, que esta dupla perda sensorial cause problemas de aprendizagem, de
conduta e afete suas possibilidades de trabalho, é denominada surdocega”. OLSON,
Stig, Surdocegueira .Apresentação na “A surdez: um mundo de encontro”, Santa Fé
de Bogotá,1995. É considerada uma
deficiência única e especial que requer métodos de comunicação especiais, para
viver com as funções da vida cotidiana. (BEST Tony
InformationGuide,definições de surdocegueira usadas em outros países. Documento
sem editar). É uma limitação que se caracteriza por sérios problemas
relacionados com a comunicação com o meio, com a orientação no meio e à
obtenção de informação. (McINES, JohnProgramming for congenital and early
adventitiosdeafblind adults). Existem
dois Tipos de Surdocegueira: CONGÊNITA:
Quem nasce com esta única deficiência, como por exemplo pela rubéola adquirida
no ventre da mãe e ADQUIRIDA: Quando a pessoa nasce ouvinte, vidente, surda
ou cega e adquire, por diferentes fatores, a surdocegueira.
A comunicação entre os seres humanos
é considerada um processo interpessoal por meio do qual se estabelecem vínculos
com os outros; esta relação é estabelecida de diferentes maneiras e, segundo as
possibilidades comunicativas de cada um, pode acontecer
com movimentos do corpo, utilizando objetos do ambiente que adquire um valor
simbólico ou desenvolvendo um código linguístico. Por meio do uso dos objetos,
a criança pode compreender e expressar as intenções comunicativas. Em outras
palavras, a comunicação é um ato intersubjetivo que acontece entre duas ou mais
pessoas, onde há uma troca entre significados e sentidos. (Habermas,
Jurgen.1991).
Nas crianças com surdocegueira e com
deficiência múltipla, a COMUNCIAÇÃO é o aspecto mais importante e, por isto,
deve-se focar nele toda a atenção na implementação do programa
educacional/terapêutico, já que é o ponto de partida para chegar a qualquer
aprendizagem.
Sabe-se que a perda visual e auditiva
limita o conhecimento do que acontece, já que sua percepção de distância fica
comprometida. Não saber o que acontece fora do corpo pode gerar angústia,
instabilidade emocional e temor. É então que a unidade de vida e conexão com o
mundo é feita por meio do tato, “adquirindo uma relevância especial nas suas
necessidades de comunicação, obtenção de conhecimentos e aprendizagem”. (Alvarez,
1991); este sentido depois da visão e da audição, é o que pode oferecer
mais informação, caracterizando o início
da Comunicação.
Dentre as estratégias para criar,
facilitar e incrementar a comunicação não simbólica se deve levar em conta:
Interesses Individuais: Deve-se permitir
à criança escolher tantas vezes como lhe seja possível, a imitação de ações
específicas dentro de um contexto determinado; esta conduta pode ser considerada
como um sinal.
Compensar a perda dos
sentidos à distância: Permitindo a
manipulação do ambiente com pequenos movimentos, o que implica ajudar a criança
no reconhecimento de pessoas familiares por meio da exploração tátil e visual.
Responder às tentativas de
comunicação: As crianças realizam tentativas de comunicação por meio de formas
muito simples, estas tentativas devem ser respondidas e podem chegar a se
transformar em forma de comunicação não verbal intencional.
Consistência: as
rotinas consistentes e estruturadas ajudam a criança surdocego e multideficiente
a antecipar os próximos eventos.
Proporcionando
contingências: A contingência no conhecimento ou consciência de que uma ação é
importante para dar ênfase às relações entre os comportamentos e seus efeitos. Criando
a necessidade de se comunicar: devem ser criadas situações onde a criança
tenha que interagir para poder participar e obter a atividade desejada.
Introduzindo um tempo de
espera nas respostas: A criança surdocego e multideficiente
precisa de mais tempo para responder.
Estabelecer uma vizinhança
cooperativa social: Devem ser criadas situações que envolvam duas ou mais pessoas que
implique uma participação recíproca ou onde seja necessário cumprir turnos e
mantê-los; turnos com rotinas diárias e a oportunidade de interagir com
crianças menos limitadas ou que não tenham limitações.
Incrementar as expectativas
comunicacionais: Incrementar a comunicação não simbólica a partir de uma variedade
de situações diárias.
A comunicação com pessoas que adquirem a surdocegueira após ter uma língua
é muito diferente da utilizada pelas pessoas com surdocegueira congênita, já
possuem um nível de pensamento simbólico e “costumam conservar a linguagem no
transcorrer de suas vidas, caso não aconteçam circunstâncias especiais”. Os
sistemas de comunicação são diversos e geralmente envolvem a(s) mão(s) da
pessoa com surdocegueira e de seu interlocutor ou guia-intérprete. Podem ser
divididos em alfabéticos e não alfabéticos, se incluírem ou não a
leitura-escrita de qualquer tipo e dependem para o seu ensino e uso, de
condições e aprendizagens anteriores. “O passo inicial é a realização de uma
avaliação dos possíveis resíduos visuais e/ou auditivos e do nível de linguagem
alcançado neste momento, antes de selecionar o sistema ou sistemas mais
apropriados para cada caso concreto. Entretanto, seja congênita ou adquirida a
sua limitação, os surdocegos dependerão sempre de métodos especiais de
comunicação”. São elas:
·
Resíduos
visuais e/ou auditivos
·
Momento
de aparecimento da surdocegueira
·
Aceitação
da nova condição (aspecto emocional)
·
Idade
da pessoa
·
Nível
educacional alcançado
·
Ambiente
familiar
Sistemas Alfabéticos:Alfabeto “Datilológico”:
Formam-se
as letras do alfabeto por meio de diferentes posições dos dedos da mão. É
similar ao alfabeto manual dos surdos, com algumas variações para uma melhor
percepção tátil ao ser soletrado na palma da mão.
Alfabeto de escrita manual: Consiste em usar
o dedo índice da pessoa com surdocegueira como lápis, para escrever cada letra
sobre uma superfície do corpo (palma da mão) ou sobre um material externo;
também se aplica usando a mão do interlocutor para escrever cada letra e a
pessoa com surdocegueira colocando sua mão sobre a mão de quem escreve sobre a superfície.
Placas Alfabéticas: Existem dois
modelos de tabelas que tem as letras ordinárias escritas em maiúscula e outra
em tinta ou Braille (com a letra correspondente sobre cadasímbolo); o processo
consiste em que o interlocutor vai indicando cada letra para formar uma palavra
com o dedo do surdocego e serve tanto para transmitir mensagens comopara a
recepção tátil, colocando o dedo índice sobre cada letra procurada.
Meios Técnicos com saída em Braille: São máquinas
utilizadas pela pessoa com surdocegueiraque conhece o Sistema Braille.
Sistemas não alfabéticos: Língua sinais: Fundamenta-se na
construção de sinais a partir dediferentes posições, configuração de mãos,
especialmente os que representem palavras, números e outros códigos. É
comumente usada pela população surda.
Tadoma: Consiste na
percepção da posição dos órgãos fonoarticuladores que são os que produzem a
fala (boca, bochechas, garganta) nas pessoas, para que sintam as vibrações e as
diferentes posições que estes órgãos adquirem para a produção da linguagem
oral.
A escolha do Sistema de Comunicação deve levar em
conta a individualidade da pessoa com surdocegueira, seu
diagnóstico, seus interesses, experiências e conhecimentos.
São consideradas pessoas com
deficiência múltipla aquelas que "têm mais de
uma
deficiência associada. É uma condição heterogênea que identifica diferentes
grupos
de pessoas, revelando associações diversas de deficiências que afetam, mais
ou menos intensamente, o funcionamento individual e o relacionamento social"
(MEC/SEESP,
2002). As características específicas apresentadas pelas pessoas com
deficiência múltipla lançam desafios à escola e aos profissionais que com elas
trabalham no que diz respeito à elaboração de situações de aprendizagem a serem
desenvolvidas para que sejam alcançados resultados positivos ao longo do
processo de inclusão. Por isso, faz-se necessário dar atenção a dois aspectos importantes:
a comunicação e o posicionamento.
COMUNICAÇÃO: Todas
as interações de comunicação e atividades de aprendizagem devem respeitar a
individualidade e a dignidade de cada aluno com deficiência múltipla. Tais
pessoas têm a necessidade de ter alguém que possa mediar seu contato com o
meio. Assim, ocorrerá o estabelecimento de códigos comunicativos entre o
deficiente múltiplo e o receptor, que terá a responsabilidade de ampliar o
conhecimento do mundo ao redor dessa pessoa, visando a lhe proporcionar
autonomia e independência.
POSICIONAMENTO: É
indispensável uma boa adequação postural. Trata-se de colocar o aluno sentado
na cadeira de rodas ou em uma cadeira comum ou, ainda, deitado de maneira
confortável em sala de aula para que possa fazer uso de gestos ou movimentos
com os quais tenham a intenção de comunicar-se e desfrutar das atividades
propostas. Não se pode esquecer, por exemplo, que muitas vezes o campo visual
do aluno ou mesmo sua acuidade visual poderão influenciar os movimentos
posturais de sua cabeça, pois irá tentar buscar o melhor ângulo de visão,
aproveitando seu resíduo visual, inclinando-a ou levantando-a. Esses movimentos
poderão sugerir que a pessoas não está na melhor posição. Isso, porém, é um
engano, pois na verdade ela pode estar adequando sua postura.
NECESSIDADES ESPECÍFICAS DAS PESSOAS COM SURDOCEGUEIRA E COM DEFICIÊNCIA
MÚLTIPLA
Sabe-se que o corpo é a realidade
mais imediata do ser humano. A partir e por meio dele, o homem descobre o mundo
e a si mesmo. Portanto, favorecer o desenvolvimento do esquema corporal a
pessoa com surdocegueira ou com deficiência múltipla é de extrema importância. Para
que a pessoa possa se autoperceber e perceber o mundo exterior, devemos buscar a
sua verticalidade, o equilíbrio postural, a articulação e a harmonização de
seus movimentos; a autonomia em deslocamentos e movimentos; o aperfeiçoamento
das coordenações viso motora, motora global e fina; e o desenvolvimento da
força muscular. As pessoas com surdocegueira e com deficiência múltipla, que
não apresentam graves problemas motores, precisam aprender a usar as duas mãos.
Isso para servir como tentativa de minorar as eventuais estereotipias motoras e
pela necessidade do uso de ambas para o desenvolvimento de um sistema
estruturado de comunicação.
Devido às dificuldades
fonoarticulatórias, motoras ou mesmo neurológicas, é comum nessas pessoas algum
tipo de limitação na comunicação e no processamento e elaboração das
informações recolhidas do seu entorno. Isso pode resultar em prejuízos no
processo de simbolização das experiências vividas, por acarretar carência de
sentido para as mesmas. Prioritariamente deve-se, portanto, disponibilizar
recursos para favorecer a aquisição da linguagem estruturada no registro
simbólico, tanto verbal quanto em outros registros, como o gestual, por
exemplo. Todo trabalho com o aluno com deficiência múltipla e com surdocegueira implica
em constante interação com o meio ambiente. Este processo interacional é prejudicado
quando as informações sensoriais e a organização do esquema corporal são
deficitárias. Prever a estimulação e a organização desses meios de interação
com o mundo deve fazer parte do Plano de AEE.
O professor, da escola regular, interessado
em incluir, acolhe o aluno que lhe chega como pessoa real e única, tenha ele ou
não deficiências. Essa atitude se manifesta em escuta e olhar atentos, sem
pré-julgamentos ou prognósticos de desempenho, baseados em preconceitos e/ ou procedimentos
escolares excludentes.
Para todo e qualquer aluno, é necessário repensar a organização espacial
da escola e da sala de aula, o que pressupõe a mobilidade dos alunos com
surdocegueira. Este espaço deve ser devidamente sinalizado em diferentes
linguagens, nos quais os alunos com surdocegueira devem ser estimulados a circular
neles.
RECURSOS PARA A APRENDIZAGEM DE ALUNOS COM SURDOCEGUEIRA E DEFICIÊNCIAS
MÚLTIPLAS
OBJETOS DE REFERÊNCIA:São
objetos que têm significados especiais, os quais têm a função de substituir a
palavra e, assim, podem representar pessoas, objetos, lugares, atividades ou
conceitos associados a eles, segundo e Maia et al (2008).
OBJETOS DE REFERÊNCIA DAS ATIVIDADES: Um
boné, por exemplo, pode ser, para um aluno com surdocegueira, um objeto que antecipa
a atividade de orientação e mobilidade.
CAIXAS
DE ANTECIPAÇÃO: As caixas de antecipação devem ser utilizadas com crianças que
ainda não têm nenhum sistema formal de comunicação. Ela permite conhecer
os primeiros objetos de referência que anteciparão as atividades e o
conhecimento das primeiras palavras.
CAIXA DE ANTECIPAÇÃO COM IDENTIFICAÇÃO DOS
OBJETOS DE REFERÊNCIA DA ALUNA E COM OS OBJETOS DE REFERÊNCIA DAS ATIVIDADES: Objetos
concretos colados em placas de madeira (escova de dente, chaveiro, miniatura
de uma jarra, saboneteira e peça de um jogo)
CALENDÁRIOS: Os
calendários são instrumentos que favorecem o desenvolvimento da noção de tempo
e que ajudam os alunos a estabelecer e compreender rotinas.
A interface do professor do AEE com a
escola comum visa a compartilhar informações, orientações e a realizar a
avaliação conjunta das necessidades do aluno e das adequações específicas para
os alunos com surdocegueira e com deficiência múltipla. As salas de aula e o
ensino comum em si mesmos apresentam diversos desafios para os alunos com
surdocegueira e com deficiência múltipla. Os professores que conhecem as características
do ambiente educacional podem identificá-las, promovendo diversa adequações que
ajudarão a participação desses alunos na turma. (ver texto na íntegra).
Deve-se considerar que nas crianças é
importante limitar a quantidade de pessoas que estruturam uma relação;
Compensar a informação sensorial é um dos objetivos principais da comunicação;
A forma do processo é mais importante do que chegar a cumprir um objetivo; o
importante é a comunicação que se estabelece e que em alguns casos, é
importante ensinar mais de um sistema de comunicação à pessoa com
surdocegueira, já que assim ela poderá ter mais oportunidades de interagir com
os demais.
REFERÊNCIA:
BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA,
Sandra R. S. H.; MAIA, Shirley R. Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial
na Perspectiva da Inclusão Escolar - Fascículo
05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla (2010). Capítulo 4 - A escola
comum e o aluno com surdocegueira. Capítulo 5 - Deslocamento em trajetos.
Capítulo 6 - Pessoa com surdocegueira.
Título em Português - Comunicação para Pessoa
com surdocegueira.
Tradução:
Miriam Xavier de Oliveira (2004).
Revisão: Shirley Rodrigues Maia (2005).